Blá blá blá

As relações e as prisões

Começa na família com gene determinado

Patologias e padrões embutidos e fracionados

No caos dessa união as relações começam a nos aprisionar

Entre valores e sentidos cada grade tem fundamento

Com cores e formas hereditários se faz um mundo de ideários

O banco de dados está formado, seu sangue vale um bom reinado

Sua doença tá registrada, em cada traço da sua árvore generalizada

Das qualidades nasce a discriminação, diversidade biológica não é padrão

Ficar isolado na sua espécie é trabalho do cão

Coitado desse tal diabo, leva a culpa do mundo dos dentes até o rabo

Sartre o absolveu dessa sentença desse julgado

Existencialismo mais parece um barco furado

Primeiro existo e depois lido com os resultados

Falo do existencialismo sem sentido e com muitos obstáculos

De fato, são apenas palavras de uma liberdade inalcançada.

Blá.

“ESTADOS”

Estado democrático
Estado federado
Estados unidos
Estados separados
Estado sólido, líquido e gasoso
Estado hormonal alterado
Estado de espírito abalado
Chama Exú e Jesus Cristo pra encontrar o estado equilibrado
Com tantos estados presentes
Me perco nesse estado geográfico
Dentro de mim experimento tantos estados
De norte a sul, de leste a oeste
Não me cabe um estado delimitado
Aqui dentro universo imensurável
Fronteiras imaginárias criam ESTADOS

A GOTA


Uma gota é início

Uma gota é o fim

Uma gota faz transbordar e o samsara esvaziar

Uma gota pelo rosto, um desabafo, um desgosto

Tem gota doce, tem gota salgada

Tem gota que lava a alma

Uma gota d’água

Uma gota d’água na panela, colhe a chuva na goteira

Uma gota d’água no fundo do balde faz batuque atabaque

Uma gota d’água na torneira lava e limpa a sujeira

Uma gota d’água no oceano banha o mundo sem engano

A gota faz eco, ecoa

Ela está no ar, na terra, na proa

Ela é quente, ela é fria

Mata a sede e alivia

Uma gota é a medida.

ALMA

Alma

Um sopro de vida, um espírito

Um corpo precisa de aliado, precisa de um amigo

Cada corpo recebe uma alma, que é o que faz a vida fazer sentido

Na alma reside a essência, o néctar da existência

Amorfa e sensível a alma é invisível

Na alma reside a verdade a tão buscada realidade

Mas o corpo ainda jovem se apega a sua matéria

A mente é um labirinto, reprodutor de ideias

Corpo e mente conectados se confundem diante de paradigmas arbitrários

Absorvem o mundo com as lentes da ilusão

Súditos de Maya, escravos da razão

A natureza com sabedoria nos revela que temos alma

Despertando para a vida a persona encorporada

Agora, corpo e espírito enxergam as dualidades

Atender os anseios da mente ou mergulhar na alma em liberdade?

Um corpo tem dois lados, é um espelho da vida

Busca por equilíbrio transitando por essa assimetria

yin e yang, direito e esquerdo, certo e errado

A alma simbiótica sabe que está tudo misturado

No caminho do meio encontramos a união

A casa do amor e o brilho da verdade

A sabedoria, pura generosidade.

HOMEM

Homem

Olhar distante presença forte

Corpo em massa idealizam sua hierarquia

Seu esperma é o alimento que dá força a vida

YANG racional objetivo, de origem nativa

Emblemático no Poder, um Deus ele quer ser

Concretos no espaço e no tempo

Sua imagem como veneno

Pater famílias, por gerações ele reinou

Sucumbindo a dicotomia diluindo sua hegemonia

Cartesiano de criação separa cada qual ao seu lugar

Unindo a alma a de um amante dilui seu ferro fugaz

Entre os elementos ele quer domínio ele quer ser reconhecido

Emergentes distorções do que é ser masculino

Brigas amigáveis fazem-lhe a transição de menino

Excitações coletivas, a virilidade opressiva

Assim forma-se um homem, dentro de uma guerra colorida

Pintada aos olhos de um falo, cuspindo jatos de gozo

Entre o céu e o inferno perseguem seu exorcismo

Corpos feridos e também violados

Há curas aos homens calados?

Atazanada

Eu tô fora de mim

Eu tô fora do tempo

Eu tô fora do contexto

Eu me sinto lenta olhando pra um relógio acelerado

Sempre em frente da tela sem entender os binários

Como um veneno, um remédio caro

Matando os neurônios, ingerindo ideais rasas

Não que eu espere outra coisa dessa vida barata, até porque ela não me ofereceu nada

Minhas esperanças não sei onde deixei, pensando bem nem mesmo esperei

Esperança do quê?

Esperar confiança é como apostar em concurso de prognósticos

De uma sorte sórdida que devora no ócio um destino fadado ao incerto

Seres humanos pensantes, como desinfetantes, vão pulverizando as vidas “desinteressantes”

Tão vil e cheio de desejos, criações inúteis erguem novos impérios

Siga-me, tenho pra ti uma nova identidade

Você vai se sentir contemporânea, ativista, no palco ou na pista

Afinal é isso que importa, não é?

Não seguir o fluxo é sempre desvantagem?

Te criticam, te esnobam, te reprimem

Te chamam de burro, ignorante e se enchem de um orgulho infame

Ser isso ou ser aquilo, um bode expiatório dá sempre um bom penico.

AMOR

Já faz dias, venho pensando no amor

Assunto batido, repetido, todo mundo já falou

Jesus Cristo, Shakespeare, Caetano

Mensageiros desse nobre sentimento

Mas tem um porém, ele não cabe em um conceito

Amor é um sentimento e também símbolo da paixão

Ardente e doloroso como fogo em rápida oxidação

Ele vem e vai, ou é permanente?

É vitrine, é publicidade, é namoro ou amizade?

Amor é um desejo? Está no gosto daquele beijo?

O amor como as demais coisas, pelo homem é racionalizado

Está em falta na sociedade atual ou nunca foi realmente vivenciado?

Uma mente presa ao amor se regozija com o sofrimento

Carcereiro por tradição ele cuida da carência e também da sedução

Ele é misto, é plural, ele não pode ser dominado

Ele é como um animal instintivo e solitário

Em tudo jaz o amor

Ele é paradoxal é a arte do conflito

É tese, antítese e síntese

Alguém me disse que quando ouve a palavra amor lembra da avó

Logo pensei: aconchego, colo, segurança, está também naquele cheiro que me traz lembrança

Agora o amor me interessa no sentido literário

Porque o amor sentido dá muito trabalho!

HIATO

Autorretrato, de repente se abre um hiato

Entre o que vejo no espelho e o meu real semblante

Quantas imagens, quantas nuances

Já não sei quem sou, será que alguém sabe?

Me transformei em tantos alguéns, tantas mentiras e tantas verdades

Pseudoimagem, essa sim é a realidade

Nesse mundo estético que exige uma roupagem

Fui me vestindo e encarando as personagens

Nem sei quantas histórias contei, me perdi e isso é fato

Agora busco no fundo dos meus olhos um ser humano selvagem

Livre dos padrões e das qualidades

Um ser orgânico sem tantas necessidades

Aquela que vem cumprir a missão dentro do ciclo da vida

Sem uma mente sã, sem medos, sem histórias e sem feridas

O universo simplesmente flui, sem querer respostas e sem fazer perguntas

Mas nessa hora já me fundi ao cosmo, serei o sol, serei a lua

Serei minha própria luz, serei o início e o fim

Deuses e Deusas habitam aqui

Toda magia e todo mistério, sem achar uma resposta nesse campo etéreo.

AMIGAS

Somos assim

Mistas, plurais, homogêneas

Sorrindo ou chorando, sempre buscando

Quando juntas a farra é certa

Quando reclusas, crescemos nas metas

A gente lembra, esquece e confunde

Mas tudo isso no caldeirão dá um bom estrume

Assim abre-se o portal da fertilidade

Nossa prole vem e eterniza nossa irmandade

Passadas, daí só pode vir risadas

Clandestinas, ilegais, subversivas, matriarcais

Somos assim, somos mulheres

Cada dia mais afiadas

Vivemos a vida e fazemos piada

Só sou assim porque tenho vocês

Não solto a mão de ninguém

Ciranda girando, soltem as giras

Para os ciclos renovar e essa mulher que te habita se libertar.

Gaiola

Essa vida é uma prisão!?

As grades estão por todos os lados

Começa no corpo que mantém o espírito encarnado

Escola, Casa, Hospital, Parque

O intuito é estar trancado

Hora pra acordar, comer e dormir

As vezes um banho de sol pra te fazer sorrir

Até no coração tem grades pra não ter um amor “roubado”

O povo gostou tanto das grades que sabe-se até do cinto de castidade

As grades criaram a propriedade

Que se tornou o sonho da humanidade

Minha casa minha vida

Ora, ora, quem pula a grade é marginalizado

Pássaros pegando voo, seres abençoados

Chega dessa merda, dessa grande mentira

Tira as grades da cabeça e se abre pra vida

Aqui fora tudo é próspero e abundante

O movimento que renova tudo a todo instante

Assim é a vida

Cheia de mistérios e segredos

Só não vale a pena acreditar no medo

Um mundo construído sob a mentira

É assim, cheio de grades e pílulas

Mas há uma verdade e a escolha é sua

Quer construir grades ou liberdade?

Ainda tem um porém

Somos coletivos, somos um

Se olhar só pro seu umbigo

Não chegará a lugar nenhum.